Emissões: Os impactos mais renegados das hidrelétricas. moreFearnside, P.M. 2011. Emissões: Os impactos mais renegados das hidrelétricas. Contra Corrente, No. 3: 27-30. |
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Philip M. Fearnside*
CONTRA BOMBffE
Emissoes: os impactos
mais renegados das
hidreletricas
Industria, governo e financiadores, como o BNDES, nao querem admitir que as
barragens, na Amazonia, sao mais prejudiciais que a queima de combustfvel fossil
Ao financiar barragens na Amazonia, o BNDES pode ser (co) responsabilizado pelos seus graves
impactos, inclusive pelas emissoes de gases de efeito estufa
As emissoes de gases de efeito
estufa representam um grave
impacto que precisa ser
avaliado tanto no licenciamento pelas
autoridades ambientais brasileiras
como pelas instituicoes que finaciam a
construcao de barragens. A atua'cao do
Banco Nacional de Desenvolvimento
Economico e Social (BNDES) e
parlicularmente definidora nesse
cenario, uma vez que, alem de financiar
a conslruyao de barragens no Brasil,
ele tambem financia uma serie de
projetos na Bolivia e no Peru, onde o
licenciamento c ainda menos rigoroso
que no Brasil.
Represas hidreletricas nao produzem
"energia limpa", ao contrario das
afirmacoes da industria hidreletrica,
porta-vozes governamentais e os
bancos que financiam a construcao
das barragens. Infe.izmente, represas
liberam gases de efeito estufa,
contribuindo, dessa forma, com o
aquecimento global. Na Amazonia,
frequentemente, as barragens sao
mais prejudiciais do que a queima de
combustivel fossil para a geracao de
energia, por varias decadas. A propria
Floresta Amazonica se encontra sob
ameaca de mudancas climaticas nessa
escala de tempo, fazendo com que
barragens como essas jamais poderiam
ser consideradas mitigadoras do
aquecimento global.
Nas barragens amazonicas, gases de
efeito estufa sao liberados de diferentes
formas. Primeiro, as arvores mortas
pela inundacao da florestas se projetam
acima da superficie da agua e se
deterioram ao ar livre, liberando gas
carbonico (C02). Esse gas se constitui
em uma contribuicao liquida ao efeito
cstufa, diferente do gas carbonico que
sera liberado da agua do reservatorio,
resultante da decomposicao subaquatica
de plantas que cresccm no reservatorio
ou na area circunvizinha, depois da
construcao da represa.
A quantidade de gas carbonico que
essas plantas absorvem da atmosfera
enquanto elas crescem e a mesma
que sera liberada apos a morte delas,
durante o processo de decomposicao.
Porem, muito da materia vegetal que
se decompoe no reservatorio nao libera
seu carbono na forma de gas carbonico,
mas sim como metano (CHi). Isto ocorre
porque a agua do (undo do reservatorio
praticamente nao tern oxigenio e,
portanto, o oxigenio necessario para
formar gas carbonico nao e disponivel.
Um impacto muito superior
A metade do peso seco da vegetacao
e carbono, e o impacto sobre o efeito
estufa e maior quando a vegetacao que
se decompoe debaixo d'agua libera
este carbono na forma de metano
em vez de gas carbonico. Isso ocorre
porque, de acordo com o relatorio de
2007 do Painel Intergovernamental
sobre Mudanca de Clima (IPCC), uma
tonclada de gas metano, ao longo de
100 anos, equivale a 25 toneladas de
gas carbonico. Entretanto, analises mais
recentes, que incluem efeitos indiretos
sobre poeira e outros aerossois indicam
que o impacto de metano e 34 vezes
maior que o de gas carbonico, para o
mcsmo periodo.
Os reservatorios hidreletricos sao
muito diferentes de lagos naturais,
na medida em que a agua de um
reservatorio sai pelas turbinas,
localizadas perto do fundo ou, entao,
pelos vertedouros, onde a agua passa
por uma fenda que se abre quando
uma porta de aco e levantada, tambem
a uma profundidade consideravel na
coluna d'agua. Em um lago natural,
a agua deixaria o lago atraves de
um corrego de saida. Dessa forma,
a agua viria da superficie, onde ela
estaria em contato com o ar. A agua
de um reservatorio se separa em duas
camadas, uma superficial - de 2 a 10m
de profundidade, aproximadamente -,
onde a agua e relativamente quente e
contem oxigenio dissolvido oriundo
do contato com a atmosfera; e uma
camada mais profunda, onde e agua
fria. A camada profunda, e onde o
oxigenio e praticamente ausente, nao
se mistura com a camada superficial.
No sedimento no fundo do reservatorio,
"Para chegar
a uma decisao
racional sobre
qualquer projeto
energetkOp a
primeira pergunta
a ser respondida
e a questao sobre
o que ira ser feito
com a energia."
a decomposicao produz metano, que
permanece em concentracao elevada na
agua na camada profunda. Parte deste
metano e liberada para a superficie
na forma de bolhas ou, por meio de
difusao - essa ultima, especialmente em
um reservatorio recem-formado.
A maior parte da emissao, no entanto,
ocorre quando a agua passa pelos
vertedouros e turbinas. Essa agua esta
sob alia pressao e, quando e lancada
abaixo da barragem, a pressao cai
subitamente. Os gases dissolvidos na
agua repentinamente tornam-se menos
soliiveis (Lei de Henry, na quimica),
e a maior parte e liberada durante
um curto espaco de tempo. Esse e o
mesmo processo que ocorre quando
uma garrafa de refrigerante e aberta e
surgem bolhas de COz, exceto que, no
caso de um refrigerante, a diferen^a de
pressao e muito menor do que em uma
barragem hidreletrica.
Quando um reservatorio hidreletrico
e inundado pela primeira vez ocorre
um grandc pulso de emissoes de
gases de efeito estufa, que permanece
durante os primeiros anos. Isso
inclui o lancamento do CO; oriundo
da decomposicao das arvores mortas,
acima da superficie da agua, c a
liberacao de CO? e CH4 oriundos de
outros estoques de carbono existentes
antes do enchimento do reservatorio.
tais como,carbono do solo e das
folhas que caem, quando as arvores
morrem. Este impulso inicial diminui a
medida que se esgotam os estoques de
carbono em Tormas que sao facilmente
degradaveis.
Apos o pico inicial das emissoes
a partir de estoques pre-existentes
de carbono, havera uma emissao
sustentada em um nivel inferior,
oriunda de carbono que e produzido
por fotossintese no reservatorio,
na zona de deplecionamento e das
folhas de arvores presentcs na area
de captacao. Essas folhas caem e,
posteriormente, sao levadas para
orioc seus afiuentes pelas chuvas
torrenciais e os eventos de inundacao
associados. A emissao sustentada de
metano pela decomposicao de biomassa
com essa origem representa uma fonte
permanente de emissoes de gases de
efeito estufa.
Conspiracao? So se for a corporativa
A sugestao de que os reservatorios de
hidrelctricas liberam gases de efeito
estufa foi feita pela primeira vez em
1993 por um grupo de canadenses
com base em dados de reservatorios
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COMTHA COWSKTE
naquele pais. Minha publicacao, em
1995, provocou a furia da industria
de hidroenergia por ter rcvelado que
a represa de Balbina, na Amazonia
brasileira, teria um impacto maior do
que os combustiveis fosseis. Porta-
vozes da Associacao Americana de
Hidreletricas (dos EUA) e da Associacao
Intcrnacional de Hidreletricas (do
Reino Unido) alegaram que a no^ao
que barragens produzem metano seria
uma "asneira" e que reservatorios
representavam "um jogo de soma zero"
porque as emissoes provenientes dos
ecossistemas pre-reservatorios seriam
eliminadas. No enianto, os ajustes para
essas emissoes sao incluidos nos mcus
calculos, e os calculos indicam um
grandc impacto liquido de barragens.
A Eletronorte atribuiu a idcia a uma
conspiracao internacional que queria
falar mal do Brasil (ver ambos os lados
do debate na secao "Controvcrsias
AmazorMcas" no site http://philip.inpa.
gov.br).
Nos anos seguintes, uma quantidade
significativa de pesquisas com'provou
as emissoes de gases de efeito estufa,
e a industria hidreletrica foi forcada a
reconhecer que as barragens liberam
esses gases. No entanto, passou a
susteritar que as emissoes sao poucas
e muito menores do que as emitidas
a partir de combustiveis fosseis para
gerar a mesma energia. Esta posicao,
geralmente, tern sido sustentada
por simplesmente ignorar as fontes
principals de emissoes das barragens,
tais como o metano liberado das
turbinas e vertedouros, bem como o CO2
da decomposicao de arvores, acima da
superficie da agua. As linicas emissoes
incluidas na maioria dos estudos
financiados pela industria hidreletrica
sao as bolhas e a difusao atraves da
superficie dos proprios reservatorios.
Camuflagem governamental
0 primeiro inventario brasileiro de
emissoes de gases de efeito estufa,
lancado em Buenos Aires, em 2004,
na Confercncia das Partes (COP), da
Convencao Quadro das Nacoes Unidas
sobre Mudacas do Clima, incluia
uma secao sobre as emissoes de
hidreletricas. No entanto, as emissoes
provenientes desta fonte nao foram
"Esses impactos
[das emissoes]
precisam ser
considerados nao
apenas no sistema
de Ucenciamento
ambiental mas
tambem no
planejamento de
desenvolvimento
nacional e nas
decisdes sobre
financiamento
dos bancos que
constroem as
barragens."
incluidas no total da contribuicao
do Pais para o aquecimento global.
Alem disso, a secao sobre emissoes
hidreletricas, mais uma vez, so
incluiu as emissoes da superficie do
reservatorio. Minhas estimativas, por
exemplo, sao mais do que 10 vezes
maiores do que os niimeros oficiais
para as duas barragens na Amazonia,
incluidas no relatorio (Tucurui e
Samuel). Essa diferen^a e resultante,
principalmentc, da inclusao das
emissoes provenientes das turbinas,
vertedouros e da decomposicao de
arvores mortas, acima da superficie
da agua (ver trabalhos sobre cada
barragem disponiveis em http://philip.
inpa.gov.br). Nada mudou no Piano
Nacional de Mudancas Climaticas
(PNMC), apresentado na COP, em
Copenhague, em 2009. Nele, as
barragens sao descritas como energia
limpa e as emissoes das turbinas e
vertedouros nao sao mencionadas.
Neste momento, 0 exemplo mais
flagrante de que essas emissoes sao
ignoradas e 0 Estudo de Impacto
Ambiental [EIA) e 0 Relatorio de
Impacto Ambiental (Rima) para a
barragem de Belo Monte, proposta
para 0 Rio Xingu. 0 EIA discute as
emissoes de gases de efeito estufa, mas
nao chega a nenhuma quantificacao
do impacto do projeto e restringe a
discussao as emissoes da superficie do
reservatorio. Ha quinze anos atras,
isso poderia ser desculpavel mas,
atualmente. fingir que emissoes das
turbinas e vertedouros nao ocorrem
e indefensavel (consulte a rcvisao
sobre 0 EIA/Rima de Belo Monte em
http://colunas.globoamazonia.com/
philipfearnside/). 0 EIA/Rima de
Belo Monte ignora completamente
a literatura, hoje substancial,
mostrando a liberacao de quantidades
significativas de metano das turbinas
e vertedouros. Estas emissoes nao sao
meros "calculos", pois tern sido medidas
diretamente em Balbina, no Brasil, e em
Petit Saut, na Guiana Francesa.
Outra tragedia anunciada
No caso de Belo Monte, a controversia
vai muito alem das emissoes das
principais fontes de metano da represa
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K BNDES
fora de Belo Monte
Sociedade civil brasileira e internacional demandam que o BNDES
nao financie a usina de Belo Monte
em si. A maior controvcrsia envolve
o retrato da barragem na versao atual
do EIA/Rima como scndo a linica
planejada no Rio Xingu. A maioria dos
observadores que nao trabalha para
a indiistria hidreletrica ou que nao e
fmanciada por ela (inclusive este autor)
considera este cenario ficticio (veja
evidencia citada nos trabalhos sobre
Belo Monte, disponiveis em http://
philip.inpa.gov.br). 0 piano original
incluia a construcao de cinco represas.
a montante de Belo Monte. Tres dessas
represas (embora em locais ligeiramente
diferentes) foram indui'das no ultimo
piano, antes do anuncio do cenario dc
uma unica represa. em 17 dejulho de
2008. 0 Conselho Nacional de Politica
Energetica (CNPE), que instituiu a
politica de uma unica barragem, e
livre para reverter esta decisao a
qualquer hora.
A sequcncia mais proYaYcl de eventos
e que, apos a conclusao de Belo
Monte, ou quando ela ainda estiver em
construcao, haveria uma "descoberta
surpresa" de que Belo Monte seria
cconomicamente inviavel sem a agua
armazenada em represas a montante e,
com isso, apareceriam as justificativas
necessarias para a aprovacao das
represas adicionais. A represa
mais conhecida como "Babaquara"
(oficialmente renomeada como
"Altamira") seria a primeira prioridade.
No projeto original, esta represa teria
urn reservatorio com 6.140 km' de area,
o dobro da area da notoria represa
de Balbina. A Babaquara teria uma
zona de 3.580 km/ exposta na epoca
da agua baixa (i.e., maior que toda a
area de Balbina) que seria re-inundada
todos os anos. A emissao potencial
de uma represa como esta e enorme.
Parte da emissao ocorreria no proprio
reservatorio de Babaquara e parte
com a passagem da agua carregada
de metano para o reservatorio de Belo
Monte, localizado imediatamente
abaixo dela. 0 "Complexo Altamira'"
(Belo Monte/Babaquara) nao teria um
saldo positivo em termos de impacto
sobre o aquecimento global durante 41
anos (veja http://www.periodicos.ufpa.
br/index.php/ncn/article/view/315/501).
Planejamento fechado e irracional
0 problema fundamental quar.do se
tfala. de barragens e de emissoes de
gases de efeito estufa e a forma como
as decisoes sao tomadas. Para chegar
a uma decisao racional sobre qualquer
projeto energetico, a primeira pergunta
a ser respondida e a questao sobre o
que ira ser feito com a energia. Isto e
particularmente importante no caso da
barragem de Belo Monte, onde o fator
domiriante e a exportacao dc materials
elelro-intensivos, especialmente o
aluminio. Esta e uma das utilizacoes
de eletricidade que gera menos
emprego no Brasil por GWh dc energia
consumida. Uma discussao nacional
sobre quais seriam as melhores formas
de utilizacao de energia (em oposicao
a produc,ao de energia) para o Pais
nem sequer comei^ou. A questao esta
totalmente ausente do atual Piano
Dccenal de Expansao de Energia
(PDEE), para 2011-2020.
Uma vez decidida a questao do
uso de energia, as varias opcoes
devem ser comparadas, incluindo
investimentos em eficiencia energetica
e a gerac.ao de energia a partir de
uma ampla variedade de fontes
potcnciais alem de combustiveis fosseis
c hidreletricas. Essas comparai^oes
exigem uma contabilidade aberta e
abrangente, tanto dos impactos como
dos beneficios, de cada opcao. As
emissoes de gases de efeito estufa
representam apenas um dos muitos
impactos das barragens hidreletricas
que devem ser considerados em tais
comparacoes. As estimativas'dos
impactos das emissoes devem incluir
as emissoes de metano pelas turbinas
e pelos vertedouros que tern sido
ignoradas, de forma sistematica, nas
posi^oes oficiais brasileiras sobre o
assunto. Esses impactos precisam ser
considerados nao apenas no sistema de
liccnciamcnto ambicnlal, mas tambem
no planejamento de desenvolvimento
nacional e nas decisoes sobre
financiamento dos bancos que
constroem as barragens. Nesse cenario,
o BNDES e o ator mais importante e,
por isso, a sociedade civil demanda
que ele seja (co) responsabilizado pelos
impactos das obras cm que investe.
Ainda mais considerando que o seu
alcance ultrapassa as fronteiras do
Brasil. Em paises como a Bolivia e o
Peru, pelo menos uma duzia de barragens
cstao prestes a receber financiamento
do BNDES e serem construidas por
cmpreiteiras brasileiras.visando a
exportacao de eletricidade para o Brasil.
Philip Fearnside e pesquisador do Institute Nacional de
Pesquisas da Arrazdnia (INPA) - pmfeam@INPA.gov.bf
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