A Usina Hidrelétrica de Belo Monte em pauta moreFearnside, P.M. 2011. A Usina Hidrelétrica de Belo Monte em pauta. Política Ambiental. No. 7, pp. 4-20. ISSN 1809-8185. [http://www.conservation.org.br/publicacoes/index.php?t=5] |
7 views |
Brazil, Amazonia, Belo Monte, Energy Policy, Renewable Energy, Energy, Hydropower, Hydroelectric dams, Large Dams, Big Dams, Dams, Tropical Ecology, Brazil, Amazonia, Xingu, Belo Monte, Hydroelectric dams, Reservoirs, Energy Policy, and Big Dams
INTERNACIONAI
CONSERVAQAO
INTERN ACIONAL
Brasil
o
fins lucrativos, fundada em 1987,
com o objetivo de promover o
bem-estar humano fortalecendo a
sociedade no cuidado responsavel
e sustentavel para com a natureza
- nossa biodiversidade global -
amparada em uma base solida de
ciencia, parcerias e experiencias
de campo.
Presidente
Diretor executivo
Diretorde Politica Ambiental
Diretora de Comunicacao
ISSN 1809-61&6
771S09»81SQ73
Av. Getulio Vargas, 1300 / 7° andar
30112-021 Belo Horizonte MG
tel.: 55 31 3261-3889
e-mail: info@conservacao.org
www.conservacao.org
e uma re vista
eletronica da Conservacao
Internacional que visa publicar
analises feitas pela equipe tecnica
da instituicao ou de instituicoes
parceiras sobre os mais variados
temas associados a politica
ambiental brasileira.
Corpo Editorial
N°7 ♦ Janeiro 2011
Foto da capa:
(c) CI / Mirella Domenich
Projeto e edicao grafica:
Grupo de Design Grafico Ltda.
A construcao da usina hidreletrica de Belo Monte na bacia do rio Xingu
(PA), um dos principals afluentes do rio Amazonas, e considerada uma
das principais obras do Programa de Aceleracao do Crescimento (PAC) do
governo federal. Aclamada como a terceira maior hidreletrica do mundo,
Belo Monte propoe o barramento do rio Xingu com a construcao de dois
canais que desviarao o leito original do rio, com escavacoes da ordem de
grandeza comparaveis ao canal do Panama. A represa de Belo Monte deve
gerar, em media, 4,5 mil megawatts (MW) de energia e devera ter uma
capacidade instalada de 11 mil MW nas epocas de cheia do rio Xingu. As
estimativas de custo variam de R$ 19 a 30 bilhoes e a construcao da usina
preve o alagamento de uma area de 516km2, o equivalente a um terco da
cidade de Sao Paulo.
A concepcao do projeto da hidreletrica tern sido alvo de um longo e
polemico processo cuja discussao no pais perdura ha mais de 20 anos.
O governo defende a importancia da construcao da usina para a seguranca
energetica e o desenvolvimento do Brasil, argumentando que a hidreletrica
vai gerar a energia necessaria para dar continuidade ao processo de indus
trializacao do pais e manter um elevado ritmo de crescimento economico.
Segundo o governo, Belo Monte e a usina melhor planejada dentre todas
do pais e sera uma hidreletrica modelo na avaliacao e minimizacao dos
impactos socioambientais.
Por outro lado, entretanto, o projeto tern sido alvo de criticas severas de
diversos setores sociais, que alegam sua inviabilidade por questoes que
vao do economico ao cultural. Uma das principais acusacoes diz respeito a
ineficiencia energetica da usina, uma vez que a energia firme (media anual
da energia a ser produzida) giraria em torno de 40% de sua potencia, o
que faria de Belo Monte uma das usinas de menor eficiencia energetica
do pais. Outro ponto critico e o alto custo e a fonte para o custeio da obra,
para a qual se estima que de 80% a 90% dos recursos serao advindos dos
cofres publicos.
Em 1° de fevereiro de 2010, o Ministerio do Meio Ambiente concedeu
a licenca previa com 40 condicionantes, antes que questoes centrais de
avaliacao do impacto da obra fossem esclarecidas. O leilao de Belo Monte
foi realizado em 20 de abril de 2010, apesar dos esforcos da sociedade
civil e do Ministerio Publico para impedi-lo. Devido as irregularidades na
conducao do processo de licenciamento da obra, uma serie de Acoes
Civis Publicas vem tramitando na Justica, questionando a insuficiencia de
consultas publicas, a nao realizacao de oitivas indigenas como determina
a legislacao brasileira e a ONU, a necessidade de autorizacao da obra,
por se tratar de terras indigenas, pelo Congresso, entre outros. As con
dicionantes do Ibama e da Funai deveriam ter sido cumpridas pelo poder
publico e pelos empreendedores antes e depois do leilao. Entretanto, ate
o imcio de 2011, a maioria das condicionantes da licenca previa nao foi
realizada, o que legalmente impede a concessao das licencas, necessarias
para o imcio das obras.
Varios impactos biologicos e sociais sao previstos com a reducao dos
niveis da agua do rio Xingu no trecho abaixo da barragem principal, como
problemas para a navegacao e os efeitos sobre a floresta aluvial em toda a
area afetada pelo rebaixamento do lencol freatico, extincao local de espe
cies, escassez da pesca, aumento de pressao fundiaria e de desmatamento,
migracao de nao-mdios, ocupacao desordenada do territorio, proliferacao
de epidemias e diminuicao da qualidade da agua.
Os empreendedores estimam que a usina alagara cerca de 50% da
area urbana de Altamira e mais de 1.000 imoveis rurais dos municipios
de Altamira, Vitoria do Xingu e Brasil Novo, que perfazem mais de 100 mil
ha, em sua maioria sob jurisdicao do Instituto Nacional de Colonizacao e
Reforma Agraria (Incra). Como conseqtiencia, entre 20 e 40 mil pessoas
serao desalojados pela obra. Onze municipios foram definidos como area
de influencia de Belo Monte, totalizando mais de 25 milhoes ha. Cerca
de 70% desta area consiste em areas protegidas, incluindo unidades de
conservacao, terras indigenas, terras quilombolas e areas militares. Alem
dos cerca de 320 mil habitantes dos municipios afetados, 350 familias de
ribeirinhos que vivem em Reservas Extrativistas e 21 comunidades quilom
bolas da regiao seriam afetados pela usina, alem de Pescadores, pequenos
agricultores e garimpeiros.
Os povos indigenas da bacia do Xingu somam 28 etnias que totalizam
cerca de 20 mil mdios distribmdos em 19,8 milhoes ha (cerca de 40% da
bacia), que serao direta ou indiretamente afetados pela usina. Na regiao
de influencia da usina, duas TIs sao consideradas diretamente impactadas:
a Tl Paquicamba, dos mdios Juruna, e a area dos Arara da Volta Grande,
que se situam no trecho de 100km do rio que teria sua vazao drasticamente
reduzida.
Por considerar que o empreendimento nao avaliou adequadamente
os reais impactos ambientais, sociais, economicos e culturais da usina sobre
a biodiversidade e as populacoes locais, a Cl-Brasil e contraria a obra de
Belo Monte. A organizacao, que desde 1992 trabalha com o povo Kayapo
no Medio Xingu, tern em seu site o posicionamento institucional acerca
do empreendimento (http://www.conservation.org.br/noticias/noticia.php
?id=440). Acreditamos que o governo brasileiro precisa aprimorar o
planejamento de sua matriz energetica, tornando-a mais diversificada e
distribuindo melhor, no territorio nacional, seus impactos e oportunidades
socioeconomicas.
Para arbitrara respeito desse polemico empreendimento, convidamos urn
dos cientistas de maior prestigio mundial baseado no pais: Philip Fearnside.
Ele e urn dos cinco pesquisadores brasileiros da area ambiental mais
citados internacionalmente, com mais de 400 trabalhos publicados. Philip
e pesquisador-titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia
(Inpa). Desde 1992, vem promovendo a valorizacao dos servicos ambien
tais da floresta amazonica como forma de desenvolvimento sustentavel
para as populacoes rurais na regiao amazonica. Foi o vencedor, em 2004,
do Premio da Fundacao Conrado Wessel na area de Ciencia Aplicada ao
Meio Ambiente. Em 2006, foi agraciado com o 1° lugar na area de Cien
cia e Tecnologia do Premio Chico Mendes, organizado pelo Ministerio do
Meio Ambiente, tendo sido tambem reconhecido pelo Instituto de Informa
coes Cientificas (Thomson-ISI) como o segundo mais citado cientista no
mundo na area de aquecimento global (http://esi-topics.com/gwarm2006/
interviews/PhilipFearnside.html). Ele integrou o painel de especialistas
que analisou o EIA-RIMA de Belo Monte (http://www.internationalrivers.org/
files/Belo%20Monte%20pareceres%20IBAMA_online%20%283%29.pdf).
Para entrevistar Fearnside, convidamos sete jornalistas de diversas
regioes do Brasil, que atuam como reporteres e comunicadores de ONGs
ambientais e universidades publicas.
Andre Trigueiro
Reporter e apresentador da Globo News, colunista da radio CBN e professor de
Jornalismo da PUC-Rio, onde criou o curso de Jornalismo Ambiental
energia atraves da hidroeletricidade. O discurso oficial do governo -
com o aval de setores importantes da academia - sustenta a tese de
Nao. Esse discurso tern a presuncao, raramente explicitada, de que
a energia no pais continuara a ser cada vez mais usada para industrias
eletro-intensivas de exportacao, tais como as industrias de beneficiamen
to de alummio primario. Essa opcao e a mais desfavoravel para o Brasil,
pois as hidreletricas criam grandes impactos e o beneficio em termos de
criacao de empregos pelas usinas de alummio e insignificante: apenas 2,4
empregos porGWde eletricidade consumida.
Ha pianos para duplicar a capacidade de praticamente todas as usinas
de alummio no Brasil visando, evidentemente, a exportacao, ja que o pais
produz hoje muito mais alummio do que e consumido no mercado domes
tico. Seguindo essa logica, nao havera limites de quantas hidreletricas o
Brasil "precisara ter" se for para suprir a demanda mundial de alummio.
A discussao sobre o que deve ser feito com a energia ainda nem comecou
no Brasil.
Por exemplo, o atual Piano Decenal de Expansao Energetica, lancado
em fevereiro de 2009, sequer menciona a questao de decisoes sobre o
uso de energia. Simplesmente faz uma projecao da "demanda", presumin
do que esta deve ser atendida em sua integridade. Para mim, a primeira
decisao deve ser a de nao exportar mais alummio, pois o dano que causa
ao pais e maior do que o beneficio que traz. Em seguida, deve-se proibir
ou sobretaxar pesadamente os usos indesejaveis de energia e incentivar
as reducoes de uso de eletricidade atraves de melhorias na eficiencia
energetica. O exemplo mais obvio e o chuveiro eletrico que, segundo o
atual Piano Nacional de Mudancas Climaticas, e responsavel por 5% do
consumo nacional de eletricidade, ou seja, bem mais do que Belo Monte
ou qualquer outra hidreletrica planejada produziria. Depois viriam as outras
fontes (solar, eolica etc.) e, finalmente, as hidreletricas - sempre pensando
em priorizar as acoes de menor impacto e maior beneficio.
A Usina Hidreletrica de Balbina, construida no final da decada de
1980 em Presidente Figueiredo (AM), ficou marcada como um projeto
mal realizado, caro e ineficiente. E possivel comparar, em alguma
Apesar de os dois projetos serem obras de grandes impactos existem
diferencas entre Balbina e Belo Monte. Belo Monte tern a capacidade de
gerar muito mais energia do que Balbina. O lago de Balbina e imenso e esse
tambem pode ser o caso de Belo Monte se as barragens planejadas no rio
a montante (acima) forem consideradas. E essas barragens sao o "X" da
questao em Belo Monte, e aqui a historia de Balbina tern uma triste licao
para nos ensinar. Em setembro de 1987, ou seja, menos de um mes antes
do fechamento de Balbina, em 1° de outubro daquele ano, a Eletronorte
distribuiu um documento de "Esclarecimento Publico" em que prometeu en
cher o lago apenas ate a cota de 46m acima do nivel do mar. O nivel seria
mantido nessa cota ate que um programa de monitoramento da qualidade
da agua comprovasse que nao havia nenhum problema, processo que de
veria levar alguns anos. So apos a conclusao desse estudo seria tomada
a decisao sobre o preenchimento do reservatorio ate a cota plena de 50m
acima do nivel do mar. No entanto, a realidade foi bem diferente. Quando
o nivel da agua chegou a cota de 46m, nao houve nenhuma interrupcao
para realizar o monitoramento da qualidade da agua. O preenchimento
chegou ate um nivel um pouco acima dos 50m, criando um lago o dobro
do tamanho inicialmente previsto.
O paralelo com Belo Monte e extremamente preocupante. No caso de
Belo Monte as autoridades eletricas hoje fazem pronunciamentos afirmando
que apenas uma barragem sera construida no rio Xingu, e mais nenhuma
das outras cinco originalmente planejadas rio acima. No entanto, essa usina
produziria uma quantidade bem maior de energia com pelo menos uma
das barragens adicionais rio acima, presumivelmente a Babaquara (ou
"Altamira" pelo novo nome oficial). So essa barragem teria 6.140km2 pelo
piano original, ou seja, mais do que o dobro da area de Balbina, e grande
parte seria em area indigena. Assim como em Balbina, onde a opcao de
46m foi "esquecida" em prol dos 50m, a tentacao no sentido de simples
mente "esquecer" as promessas divulgadas pode ser grande na hora de
iniciar a construcao da obra.
A proposta do Itamaraty em Copenhague foi um avanco com relacao
a (triste) historia das posicoes passadas. No entanto, o Brasil precisa
assumir uma meta de verdade para reduzir as suas emissoes. O que foi
lancado na COP-15 foi apenas um "objetivo voluntario", e nao uma "meta".
Uma "meta" implica em consequencias caso ela nao seja cumprida; pode
ser, por exemplo, comprar carbono ate atingir a meta assumida. Por outro
lado, um mero "objetivo" nao implica em nenhuma consequencia se nao
for alcancado. Alem disso, o "objetivo voluntario" pode ser abandonado
ou mudado por qualquer um dos varios presidentes que o Brasil tera ate
2020, o ano a que o objetivo se refere. Uma meta sob a Convencao de
Clima e diferente: continua valendo independentemente de quern esteja
governando o pais.
O piano lancado em Copenhague e menos do que aparece, ja que usava
19,5 mil km2/ano como a taxa de referenda de desmatamento, e quase
toda a reducao prometidaja havia acontecido. Faltou explicarmelhorcomo
o desmatamento seria mantido nos "baixos" niveis prometidos. Ha uma
incoerencia com relacao aos pianos do governo federal de abrir estradas,
aumentando o acesso dos processos de desmatamento aos blocos de
floresta ainda intactos na Amazonia, como e o caso da rodovia BR-319
(Manaus-Porto Velho), que continua a constar no Programa de Aceleracao
do Crescimento (PAC).
Bettina Barros
Reporter do jornal Valor Economico
da hidreletrica - no pior e no melhor cenario?
Nao nos devemos enganar com um suposto "melhor cenario". A logica
leva a construcao de barragens rio acima, comecando com a Babaquara/
Altamira, com impactos enormes. Estes incluem: a inundacao de vastas
areas de floresta tropical; a perda, pela populacao indigena, de areas de
terra e de rio (lembrando que o uso do rio e critico para essa populacao,
pois o peixe e parte essencial da dieta); e a emissao de gases de efeito
estufa.
No cenario ideal, deveriamos seguir uma sequencia logica de passos.
Primeiro, parar de exportar aluminio, ou seja, produzir apenas o que sera
consumido no Brasil. Segundo, investirem eficiencia energetica, comecan
do com alteracoes importantes que se referem a usos mais corriqueiros
como o fim dos chuveiros eletricos que, por si so, consomem bem mais do
que Belo Monte ira produzir. Terceiro, ha a necessidade de investimentos
pesados em energia solar, eolica e outros. Os investimentos em eficiencia
e nas fontes alternativas tern que ter a mesma escala e urgencia politica
que os investimentos em hidreletricas hoje. Recomendo o texto de Celio
Bermann intitulado "Brasil nao precisa de Belo Monte", disponivel em: http://
www.amazonia.org. br/opiniao/artigo_detail.cfm?id=14820.
As audiencias foram uma farsa, com interminaveis discursos pelos
proponentes e sem nenhuma oportunidade formal para contestacoes pelo
outro lado, com a excecao de breves colocacoes da plateia, apos horas
de discurso oficial. Os mdios abandonaram o evento para nao passar a
impressao de que estavam sendo realmente consultados. Havia mais policia
do que participantes.
Passar por cima do processo de licenciamento tern urn custo de credi-
bilidade enorme. Significa que a expectativa para as futuras obras sera
tambem de aprovacao garantida, independente dos meritos, principalmente
quando se tratarde uma prioridade politica. Tanto no caso do Rio Madeira
como no de Belo Monte o corpo tecnico do Ibama se posicionou contra a
aprovacao e, no ultimo minuto, o chefe do setorde licenciamento foi subs
tituido e as licencas aprovadas.
O impacto verdadeiro em termos ambientais e humanos e muitas vezes
maiordo que os impactos oficialmente admitidos no EIA-RIMA porque esse
documento omite que haveria barragens rio acima. So Babaquara/Altamira
ocuparia, pelo piano original, 6.140km2 (o dobro de Balbina), sendo grande
parte em terra indigena.
E dificil dizer o que o Brasil ganha com Belo Monte, pois mesmo em
termos puramente financeiros o custo e grande. A construcao esta sendo
paga pelos contribuintes brasileiros, nao pelas empresas internacionais de
aluminio que vao ser beneficiadas. Essencialmente, o Brasil esta dando
subsidios aos beneficiarios de outros paises. O subsidio maior nao e o fi
nanceiro, mas sim o impacto ambiental e social que o Brasil esta recebendo.
Exportacao de alummio e essencialmente a exportacao de energia eletrica,
em forma de lingotes. Outros paises nao querem ter os impactos de gerar
esta energia domesticamente e, portanto, exportam o impacto ambiental
para o Brasil. E o pais nao esta cobrando por esse impacto. Ao contrario,
vem ate facilitando a exportacao sem sequer incorporar devidamente em
seu custo todos os gastos puramente financeiros com o fornecimento de
energia.
Herton Escobar_
Reporter especial do jornal O Estado de Sao Paulo
Eu nao concordo com a premissa de que o Brasil precisa produzir
mais energia para se desenvolver. Os problemas com Belo Monte sao mul
tiplos. Primeiro, e o fato de que grande parte da energia seria usada para
alummio. Isso nao resolve a falta de energia para outros usos de eletricidade
e ainda estimula a expansao das usinas de alumina (em Juruti e Barcarena)
e de alummio primario (em Barcarena e em Sao Luis). Alem disso, justifica
a construcao de termoeletricas para fazer essas usinas funcionarem no
periodo do ano em que Belo Monte estara praticamente sem agua.
Segundo, ha urn grande impacto ambiental e social (ignorado no EIA-
RIMA) pela imensa area a ser inundada pelas barragens que foram pro
postas a montante (rio acima) para suprir agua as turbinas de Belo Monte,
que tern uma grande capacidade instalada: 11 mil MW. Alem disso, nao
ha urn reservatorio com armazenamento "vivo" de agua para manter fun
cionando as turbinas da casa principal de forca na epoca de baixa vazao.
O problema e a chamada "mentira institucionalizada", ou seja, as afirma
coes oficiais anunciadas desde 2008 de que seria constrmda apenas uma
barragem (Belo Monte) no rio Xingu. Qualquer outra barragem a montante
resultaria em urn impacto real de Belo Monte muitas vezes maior do que
e oficialmente admitido.
Belo Monte, sozinha, e completamente inviavel economicamente, como
foi mostrado pela analise detalhada feita pela ONG Conservacao Estra
tegica (dispomvel em http://conservation-strategy.org/sites/default/files/
field-file/4_Belo_Monte_Dam_Report_mar2006.pdf). O fato de algumas
empresas estarem dispostas a investir na obra indica que elas estao con
tando com outro cenario, considerando mais barragens rio acima.
Mesmo sem considerar as barragens a montante, o projeto de Belo Monte
em si tern impactos bem maiores do que os admitidos. O "trecho seco" da
Grande Volta do rio Xingu, nos 100km abaixo da barragem principal, passa
por duas areas indigenas. O discurso de que povos indigenas nao serao
afetados se baseia na ficcao de que apenas a inundacao pelo reservatorio
constitui urn impacto "direto".
Nao podemos fazer uma generalizacao sobre todas as barragens, mas o
fato de que os impactos tendem a ser muito maiores e os beneficios muito
menores do que geralmente se admite pressupoe que, na comparacao
entre impacto e beneficio, a melhor decisao seria nao construir a maioria
das barragens propostas na Amazonia.
No caso especifico de Belo Monte: seria possivel fazer uma hidre
Nao devemos ser ingenuos com relacao as barragens a montante de
Belo Monte. A discussao sobre a possibilidade de se fazer ou nao uma
barragem naquele local precisa enfrentar a questao das barragens rio
acima. O Brasil atualmente nao tern urn mecanismo juridico confiavel para
que seja feito urn compromisso irrevogavel no quesito de nao fazer as
barragens a montante. O que existe e uma decisao do Conselho Nacional
de Politica Energetica (CNPE) dizendo que apenas Belo Monte seria feito.
No entanto, este conselho esta composto principalmente de ministros, que
mudam a cada novo mandato presidencial. O CNPE pode facilmente mu
darde opiniao no futuro, revogando a sua decisao de 2008 e permitindo a
construcao de mais barragens. De fato, ha varios indicios de que este seja
o cenario contemplado tanto pela industria barrageira como por instancias
importantes nos orgaos do governo (veja http://colunas.globoamazonia.
com/philipfearnside/). Urn indicio forte surgiu quando a Reserva Extrativista
do Medio Xingu, proposta pela entao Ministra do Meio Ambiente Marina
Silva, foi vetada pela entao Ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, porque
"poderia atrapalhar a construcao de barragens adicionais a usina de Belo
Monte" (Folha de Sao Paulo, 10 de outubro de 2010, p. A-15).
13
A Usina Hidreletrica
de Belo Monte em pauta
Perguntas para
Philip Fearnside
Entrevistadores
Andre Trigueiro
Bettina Barros
Herton Escobar
Manuel Dutra
Ana Ligia Scachetti
Hebert Regis de Oliveira
Verena Glass
o
♦
Ha bastante evidencia de que o "projeto atual" - a que os oponentes
da barragem chamam de "mentira institucionalizada" -, seja mesmo uma
mentira. Isto e, o cenario oficial e apenas uma barragem no rio Xingu. Esse
cenario nao tern credibilidade alguma entre pessoas que estudam o caso e
que nao sejam financeiramente ligadas a industria hidreletrica.
A razao mais simples e o valor politico. Ganham-se mais votos promo
vendo do que se opondo a obra. Ha tambem uma influencia da industria
barrageira, que inclui as empresas de construcao e os grupos profissionais
de engenheiros, consultores, fornecedores de equipamentos e servicos,
entre outros. Qualquer obra cujo projeto principal custa R$19 bilhoes
(ou talvez ate R$30 bilhoes), alem de varios bilhoes a mais para o sistema
de transmissao, tera urn fortissimo a favor, mesmo se nao fosse pro
duzir urn unico Watt de energia. A historia de Balbina fornece urn exemplo
concreto (vide meu livro sobre Balbina em http://philip.inpa.gov.br).
Manuel Dutra
Professor de jornalismo da Universidade Federal do Para e da Universidade da
Amazonia
recursos florestais. No irricio do seculo 20, com a participacao de Gi
unificaram as diversas instancias decisorias, criando o Servico Flores
excesso e conflitantes, o que equivale a nao ter regras, e vamos partir
para uma definigao clara do que o Brasil quer com os se
e com os seus projetos de desenvolvimento, unificando o processo
de decisoes para o campo ambiental, numa definigao do futuro que
E um pouco estranha a utilizacao do exemplo do Servico Florestal dos
EUA para ilustrar a pergunta. O Servico Florestal americano fica dentro
do Departamento da Agricultura (equivalente a um ministerio brasileiro),
e ha uma longa historia de tentativas de transferi-lo para o Departamento
do Interior, que cuida de florestas em parques nacionais e outros tipos de
reservas e que tern uma perspectiva mais ambiental.
A pergunta implica que seria melhor unificar todas as posicoes sobre
assuntos de meio ambiente e desenvolvimento. Eu diria que ha um risco
consideravel em adotar esse caminho. Nao e segredo que o Ministerio do
Meio Ambiente e muito mais fraco politicamente do que os varios ministe
rios que promovem projetos com grandes impactos ambientais, tais como
o Ministerio dos Transportes, o Ministerio da Agricultura e o Ministerio
das Minas e Energia. E so ver o contraste entre os orcamentos desses
ministerios (ver edicoes n° 1 e 2 da revista Politica Ambiental, disponivel em
http://www.conservacao.org/publicacoes/index.php?t=5, que trazem
uma analise sobre o orcamento do Ministerio do Meio Ambiente). A ten
dencia de posicoes assim "unificadas" seria sempre a prevalencia da ala
desenvolvimentista.
Ha um exemplo muito relevante disto ocorrido nos Estados Unidos. E a
historia da Agenda de Energia Atomica (AEA), que foi criada logo apos a
Segunda Guerra Mundial para promover a energia atomica e fiscalizar a
seguranca das usinas. O resultado foram centenas de quase desastres,
todos encobertos pela Agenda visando a sua funcao de fomentar a energia
nuclear. Isto so se tornou de conhecimento publico em 1979, quando houve
o acidente de Three Mile Island. Com isso, a AEA foi extinta e foram criados
dois orgaos separados, um para promover a energia e outro para fazer a
fiscalizacao da seguranca. Assim, todas as diferencas ficam visiveis ao
publico e o resultado foi uma melhoria enorme na seguranca.
A maioria das pessoas ainda nao sabe sobre as emissoes de gases de
efeito estufa das hidreletricas. Existe um extremamente forte por parte
da industria hidreletrica e por parte dos orgaos governamentais responsa
veis por promover hidreletricas. O primeiro trabalho mostrando emissoes de
gases das usinas foi publicado em 1993 por um grupo de canadenses que
mostrou emissoes de lagos artificiais naquele pais. Eu publiquei um trabalho
semelhante em 1995 mostrando que a hidreletrica de Balbina emitia mais
do que seria emitido para gerar a mesma energia com combustivel fossil e
isso foi o estopim da reacao da industria hidreletrica. No imcio, eles negaram
completamente a existencia de emissoes, mas essa posicao evoluiu ao longo
dos anos e passaram a admitiralguma emissao, mas ainda muito menordo
que as termoeletricas equivalentes. No Brasil, essa posicao se sustenta de
varias maneiras. A mais significativa e a de simplesmente fingirque as unicas
emissoes sao as das bolhas e da difusao atraves da superficie do proprio
lago, ignorando a agua que passa pelas turbinas e vertedouros. O EIA-RIMA
de Belo Monte e um exemplo gritante disso. A outra maneira e usardados das
emissoes a jusante (rio abaixo) medidas apenas como fluxos da superficie
do rio, realizadas a 50m ou mais abaixo das turbinas, ou seja, apos muito
do metano ja ter sido liberado. A unica forma de contabilizar a emissao nas
turbinas sem omitir o gas liberado logo na saida das turbinas e pela diferenca
entre as concentracoes de metano na agua acima da barragem e abaixo da
barragem. Entretanto, a tatica usada e a de dizer que essas emissoes sao
sujeitas a "controversia" e, portanto, nao devem serconsideradas ate haver
consenso entre os cientistas. E o mesmo argumento que foi usado durante
tantos anos pela industria de fumo, alegando que havia grande incerteza
sobre a relacao entre o cigarro e o cancer. No caso das hidreletricas, as
incertezas que existem na quantificacao exata das emissoes nao mudam a
conclusao bastante substanciada de que barragens liberam bastante gas
de efeito estufa. Veja em http://www.ppgecologia.biologia.ufrj.br/oecologia/
index.php/oecologiabrasiliensis/article/view/218/184.
do Xingu, em relagao a construgao de Belo Monte, sao insuficientes
E mesmo um engodo - a palavra usada pelo jornalista Lucio Flavio Pinto
no titulo do seu livro sobre Belo Monte. Nao sao apenas "ambientalistas" que
chegaram a essa conclusao. Sugiro ler a analise feita pelos economistas da
ONG Conservacao Estrategica disponivel em http://conservation-strategy.
org/sites/default/files/field-file/4_Belo_Monte_Dam_Report_mar2006.pdf.
Quanto a afirmacao de que o Brasil e "um pais que necessita de energia",
isso depende do que significa "necessita"! Subsidiar energia para exporta
cao de alummio nao pode ser considerado uma "necessidade". Vide minha
resposta a pergunta n° 1 do jornalista Andre Trigueiro.
<Vna Ligia Scachetti_
Diretora de comunicacao da Fundacao SOS Mata Atlantica
Sabemos que muitas areas da Mata Atlantica ja pagaram o preco
Amazonia protegida, isso com a justificativa de que o pais precisa de
O "porque" da obvia preferencia para formas de desenvolvimento que
envolvam a destruicao da natureza e que os beneffcios financeiros entram
no bolso do destruidor, enquanto os custos ambientais sao pagos pela so
ciedade como um todo. Assim, mesmo que o total dos impactos seja maior
que os beneffcios, a opcao e pela destruicao. Eu estou tentando ao longo
dos ultimos 25 anos "vender o peixe" dos servicos ambientais como uma
base para a economia rural na Amazonia, substituindo a economia atual
que e baseada na destruicao da floresta. Veja os trabalhos sobre servicos
ambientais disponiveis em http://philip.inpa.gov.br.
Hebert Regis de Oliveira_
Coordenador de comunicacao do Instituto de Biodiversidade e Desenvolvimento
Sustentavel do Oeste da Bahia (Bioeste)
O argumento que sempre deve ser lembrado e a falta de viabilidade eco
nomica da obra em sua versao oficial, ou seja, sem as barragens rio acima.
Muitas vezes, quando se comeca a falar em calculos economicos, pessoas
ligadas a movimentos ambientalistas e indigenas simplesmente desligam
os neuronios, pensando que apenas os grandes impactos ambientais e
sociais tern valor. Mas o aspecto economico e chave, pois a inviabilidade
do projeto sem as barragens a montante oferece uma evidencia clara da
quilo que os ambientalistas chamam da "mentira institucionalizada" e os
economistas chamam da "crise planejada". Isto e, depois de constrmda
Belo Monte, havera uma grande "surpresa" quando se descobrirque o rio
Xingu nao tern agua suficiente durante tres ou quatro meses no ano para
rodar sequer uma unica turbina nos 11 mil MW na casa de forca principal,
e vai ficar apenas com as 330 MW das pequenas turbinas da casa de forca
suplementar. Deixar ociosas as grandes turbinas, que representam a parte
mais cara de uma hidreletrica, e tambem deixar sem energia o sistema
de linhas de transmissao, nao sera urn negocio rentavel. Isto dara a forca
politica para justificar a construcao de barragens rio acima, com impactos
desastrosos hoje habilmente escondidos da discussao publica.
O EIA-RIMA tern muitas falhas graves (veja o relatorio do Painel de Es
pecialistas sobre Belo Monte, dispomvel em http://www.internationalrivers.
org/files/Belo% 20Monte%20pareceres%20IBAMA_online%20(3).pdf).
E bom lembrarque na licenca previa, concedida (sob pressao) pelo Ibama
em 10 de fevereiro de 2010, ha uma clausula ressalvando que a autorizacao
seria revogada caso tenha havido "omissao ou falsa descricao de informa
coes relevantes que subsidiaram a expedicao da licenca". Urn exemplo claro
que se enquadra nesse sentido e o tratamento das emissoes de gases de
efeito estufa. O EIA nao considera a fonte principal de emissao, que e o
metano liberado pela agua que passa pelas turbinas e pelos vertedouros.
A emissao da superficie do lago, que e relativamente pequeno em Belo
Monte, excluindo as barragens a montante, teria uma emissao por bolhas e
difusao bem pequena se comparada a emissao que sairia do grande volume
de agua passando anualmente pelas turbinas (ver calculo das emissoes em
http://www.periodicos.ufpa.br/index.php/ncn/article/view/315/501).
O EIA nao oferece alternativas para comunidades indigenas porque o
documento simplesmente finge que nao ha impactos "diretos". As duas areas
indigenas na Grande Volta do rio Xingu, que se tornaria o "trecho seco"
com muito menos agua, sao consideradas fora da area de impacto "direto",
que e retratada como sendo apenas a area submersa pelo reservatorio. No
caso das areas muito maiores de terras indigenas que seriam inundadas
pelas outras hidreletricas planejadas a montante para armazenaragua para
Belo Monte, o relatorio nao toca no assunto, devido ao fato de o EIA ser
baseado na hipotese (questionada, inclusive por mim) de que Belo Monte e
planejada para ser a unica barragem no rio Xingu. Evidentemente, os impac
tos dos grandes reservatorios a montante sobre a biodiversidade tambem
seriam muito maiores do que aqueles retratados para Belo Monte sozinha.
O EIA (Vol. 33, p. 155) sugere criar "pelo menos uma unidade de conser
vacao" para proteger o tipo de floresta que seria inundada pelo reservatorio
de Belo Monte, mas deixa para um relatorio subsequente (o Piano Basico
Ambiental - PBA) as definicoes sobre local e caracteristicas da unidade.
alagamento da area, existem estudos para identificar o que se perdera,
e flora para alguma unidade de protegao integral? E como isto esta
A ideia de que "o reservatorio tera 516km2" enquadra-se na chamada
"mentira institucionalizada", ou seja, a tese de que so havera uma barragem
no rio Xingu, a de Belo Monte. A hidrologia e a economia oferecem fortes
indicios para que a historia se desenvolva de outra forma, com a constru
cao de mais barragens para aumentar o fluxo de agua em Belo Monte na
epoca da vazante. A proxima barragem seria a Babaquara/Altamira, com
6.140km2 pelo piano original.
Quanto a fauna afetada pela primeira barragem, ha peixes unicos nas
cachoeiras da Grande Volta do Xingu. Desconheco pianos para salva-los
artificialmente. O que existem sao promessas com relacao a vazao que
seria passada pela Grande Volta. Ha preocupacoes quanto a possibilidade
de as empresas eletricas serem autorizadas, futuramente, a deixar passar
menos agua pela Grande Volta, visando aumentar a geracao de energia.
Existe tambem uma fauna incomum nas cavernas afetadas. Veja os trechos
sobre peixes e cavernas no relatorio do Painel dos Especialistas sobre
Belo Monte (disponivel em http://www.internationalrivers.org/files/Belo%20
Monte%20pareceres%20IBAMA_online%20(3).pdf).
A Usina Hidreletrica
de Belo Monte em pauta
Perguntas para
Philip Fearnside
Entrevistadores
Andre Trigueiro
Bettina Barros
Herton Escobar
Manuel Dutra
Ana Ligia Scachetti
Hebert Regis de Oliveira
Verena Glass
or ser muito menores, e evidente que o impacto de cada PCH e menor.
No entanto, nao e verdade que o impacto por MWde energia gerada seja
menor, pois a area inundada por MW instalado normalmente e maior no
caso de PCHs. Somadas, as PCHs podem criar impactos bastante gran
des nos ecossistemas aquaticos, barrando trechos extensos dos cursos
d'agua sobre regioes inteiras. O estado de Mato Grosso e outro lugar com
urn numero grande de PCHs planejadas.
Verena Glass
Jornalista da ONG Reporter Brasil
Alem dos impactos sobre as populacoes indigenas e nao-indigenas na
area hoje, ha perdas dos sitios arqueologicos mencionados. Sugiro a lei
tura do relatorio do Painel dos Especialistas sobre Belo Monte (disponivel
em http://www.internationalrivers.org/files/Belo%20Monte%20pareceres
%20IBAMA_online%20(3).pdf).
No caso de Tucurm, houve uma praga impressionante de mosquitos do
genero , urn tipo de inseto extremamente agressivo que pica tanto
de dia quanto de noite. Isto aconteceu devido aos ventos predominantes,
que na Amazonia sopram de leste para oeste, empilhando as macrofitas
(plantas aquaticas) no lado oeste do reservatorio. Esta margem estava
encostada no assentamento da Gleba Parakana, levando os assentados
a tentar, durante dois anos, conseguir urn local diferente para morar (no
final, desistiram e estabelecerem urn novo assentamento porconta propria).
5 Pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia)
2 registraram 600 picadas por hora em iscas humanas no assentamento.
'53 ;
J, Nesse caso, assim como em reservatorios amazonicos em geral, houve
^ uma explosao de macrofitas no imcio, cobrindo 40% do lago, mas com a
z diminuicao da fertilidade da agua ao longo dos anos, a area diminuiu e
estabilizou-se em 10% apos uma decada. Veja os trabalhos sobre Tucurui
dispomveis em http://philip.inpa.gov.br.
No caso de Belo Monte, com a cidade de Altamira localizada na margem
oeste do reservatorio, ha urn risco. Vamos esperar para ver.
A disponibilidade de emprego e o fluxo monetario que acompanham uma
obra deste porte fatalmente levam a urn grande aumento da populacao
local. No final da obra, no entanto, grande parte dessas pessoas fica sem
emprego e muitos migram para outros locais para se juntar a proxima obra.
Nesses casos, quern mais perde sao as populacoes tradicionais. Eu tive a
experiencia de ficar com uma farmlia tradicional justamente na area hoje
condenada para o lago de Belo Monte (orientei uma dissertacao de mestrado
sobre o sistema agricola na area). Essa populacao perde o seu sustento
e tern pouca chance de se dar bem apos a expulsao. Nao aprendemos as
licoes de Tucurui e do drama atualmente em curso dos Pescadores na area
das barragens do rio Madeira. A historia se repete.
Supondo que o projeto da usina prossiga, como fica a situacao
demarcadas (em sua maioria). Mas como ficam ribeirinhos e pequenos
dos Arara, que ainda nao esta homologada. Como ficaria esta popu
E muito importante que a populacao "atingida" seja interpretada como
todos os impactados nos efeitos da reducao drastica da vazao na Grande
Volta do Xingu. Isso inclui as duas areas indigenas abaixo da barragem.
Tambem nunca se deve esquecer a importancia da chamada "mentira
institucionalizada" (ou "crise planejada"): o impacto provavel sobre popu
lacoes indigenas e muito maior, pois as barragens a montante estao todas
predominantemente em terras indigenas.